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A Abordagem Centrada na Pessoa

1. Inserção da ACP na Psicologia Humanista

 

      O surgimento da Psicologia Humanista na década de 40 apontava para a insatisfação de diversos psicólogos e educadores com os modelos até então conhecidos da natureza humana, especialmente quanto à ausência da reflexão sobre a saúde, à questão da consciência como doadora de significados, o processo de autor regulação e auto determinismo, ao impulso de autorrealização e à compreensão dos relacionamentos interpessoais.

   Sem dúvida, a contribuição inicial de Rogers foi no campo da Psicologia, mais especificamente do Aconselhamento/Psicoterapia, quando propôs um novo olhar e um novo jeito de ser ao trabalhar com pessoas. Essa nova psicoterapia, como ele próprio denominou em sua conferência de 11/12/1940, na Universidade de Minnesota (“Os mais recentes conceitos em psicoterapia”) [i], propunha:

  • maior confiança no impulso do indivíduo em direção ao crescimento, saúde e ajustamento;

  • a terapia como uma maneira de libertar o cliente para o crescimento e o ajustamento normais;

  • ênfase nos aspectos afetivos da situação e não somente nos intelectuais; privilegiando a situação imediata mais do que o passado,

  • relacionamento terapêutico em si mesmo como uma experiência de crescimento.

 

        Essas propostas foram revolucionárias na época e contribuíram para a formação do que veio a ser denominado de “Terceira Força em Psicologia” ou Psicologia Humanista Existencial. É bem verdade que a Abordagem Centrada na Pessoa tem suas características próprias, ao mesmo tempo que partilha de valores congêneres às outras formas de psicoterapia, incluídas nessa Força, a saber: Gestalt Terapia, Psicoterapias Existenciais, Psicodrama e Psicoterapia Fenomenológica-Existencial.

         No cenário brasileiro, a Abordagem Centrada na Pessoa surgiu por volta de 1945, mas veio realmente a se firmar a partir da vinda de Rogers (e seus colaboradores) ao Brasil em 1977, através do I Workshop de Arcozelo. (Tassinari, 1996).

           Atualmente, diversos núcleos de profissionais, em todas as regiões do Brasil, têm se inspirado nessa Abordagem para nortear as mais diversas práticas, desde a psicoterapia até trabalhos comunitários e institucionais, percebendo-se leituras diferenciadas, adaptadas às culturas locais.

        Desde 1983, os praticantes da Abordagem têm tido diversas oportunidades de troca de experiências, através dos eventos profissionais que têm se realizado desde então: Encontros Latino-Americanos, Encontros Nordestinos, Fóruns Brasileiros, Encontro da Região Sudeste e Encontros Norte, só para mencionar os mais conhecidos.

2. O Desenvolvimento da Abordagem Centrada na Pessoa

 

      Acompanhando a prática de Rogers, iniciada como conselheiro, pode-se delinear momentos distintos que foram precedidos de mudanças importantes e que permitem melhor compreensão de sua teoria.

          A maioria das publicações contempla as diferentes fases da psicoterapia - com divergência de datas-, apontando três grandes momentos:1) Psicoterapia Não-diretiva, 2) Psicoterapia Reflexiva (ou Centrada no Cliente) e 3) Psicoterapia Experiencial. As aplicações na área da Educação e dos trabalhos com grupos não são contempladas como tendo, efetivamente, influenciado a própria dimensão da terapia diádica, com exceção de Cury (1993) e Wood (1994.). Holanda (1998) chega a propor uma Quarta fase - Psicoterapia Inter Humana.

           Sem entrar no âmbito dessas diferenças de compreensão, é inegável que a primeira e mais sistematizada contribuição de Rogers foi no campo da psicoterapia, entretanto ele esteve sempre interessado em descobrir as condições que levariam ao crescimento natural, ainda que suas formulações iniciais tenham sido geradas dentro do modelo mecanicista, - buscando a objetividade empírica e dando um papel especial ao conceito de self.

          Em seguida, Rogers começa a valorizar as diferenças, a exceção e não a regra. Pode-se dizer que ele tentou aplicar e ao mesmo tempo descobrir as condições que avançassem o crescimento e a saúde psicológica. Acredita-se que esse interesse constante tenha levado Rogers a experimentar, em outras relações, o que se mostrava potente na relação diádica psicoterapêutica.

    Wood considera que a Abordagem (maneira de abordar um fenômeno) é anterior à sua própria aplicação na psicoterapia, por isso denomina Abordagem Centrada no Cliente para se referir às três fases da psicoterapia e Abordagem Centrada na Pessoa para incluir as outras aplicações (à Educação, aos grupos de Encontro, aos Grandes Grupos etc.). Sendo fiel ao desenvolvimento das ideias, publicações e práticas de Rogers, podemos dizer que a denominação Abordagem Centrada na Pessoa abarca as aplicações mencionadas, portanto Abordagem Centrada na Pessoa não é sinônimo de psicoterapia. Uma abordagem tem características, mas não pode ter uma teoria.

      Wood (1994) explicita que o "jeito de ser” proposto por Rogers, implica em uma maneira peculiar de abordar um fenômeno, seja ele a relação diádica, um grupo vivencial, uma sala de aula ou um workshop para a resolução de conflitos. Esse seu entendimento é mais bem colocado em suas próprias palavras:

      “Ele [Rogers]se aproximava de cada situação com o mesmo desejo de ouvir e compreender, as mesmas atitudes, o mesmo bom humor, a mesma humildade, a mesma genuinidade e aceitação não julgadora do indivíduo ou do grupo, a mesma curiosidade e abertura à descoberta, a mesma crença de que ele poderia ajudar e que isso era a coisa mais importante do mundo a fazer naquele momento. Em cada caso, ele mantinha a intensidade em improvisar seu conhecimento e habilidades para aquela situação, a mesma vontade de aço flexível.” (p. 275)

 

3. Os Principais Conceitos da Abordagem Centrada na Pessoa

 

      Ao postular uma tendência natural inerente ao ser vivo, denominada de Tendência Atualizante, Rogers fundou uma maneira peculiar e revolucionária de se entender o organismo humano. Atualização implica criação de soluções novas, invenção (Buys, 1999). Em uma de suas últimas formulações, afirma a respeito dessa hipótese central:

      “Os indivíduos possuem dentro de si vastos recursos para a autocompreensão e para a modificação de seus autoconceitos, de suas atitudes e comportamento autônomo. Esses recursos podem ser ativados se houver um clima, passível de definição, de atitudes psicológicas facilitadoras” (Rogers, 1983, p.38)

 

      É uma abordagem que considera o organismo humano digno de confiança, havendo “um fluxo subjacente de movimento em direção à realização construtiva das possibilidades que lhe são inerentes” (Ibid., p.40). Posteriormente, influenciado pelos seus trabalhos com grupos, ampliou essa tendência para abranger o universo, denominando-a de Tendência Formativa, que é por ele definida:

      “Existe uma tendência direcional formativa no universo, que pode ser rastreada e observada no espaço estelar, nos cristais, nos micro-organismos, na vida orgânica mais complexa e nos seres humanos. Trata-se de uma tendência evolutiva para uma maior ordem, uma maior complexidade, uma maior inter-relação” (Ibid., p.50).

 

       Estudiosos e praticantes da Abordagem Centrada na Pessoa enfatizam a questão dos relacionamentos como seu tema central. As palavras de Wood (1994) reiteram esta ideia:

      "Pode-se dizer em linguagem menos precisa, mas, talvez mais comunicativa, que esta abordagem se realiza quando alguém dirige a melhor parte de si mesmo à melhor parte do outro e, assim, pode emergir algo de valor inestimável que nenhum dos dois faria sozinho." (Op.cit., capa).

 

         A esse respeito, Buys (1999) parece ser mais radical, pois vê a Abordagem Centrada na Pessoa como um esforço para compreender as relações interpessoais, entretanto, alerta-nos para o risco de que esta se dissolva, ao ser apenas concebida como “um conjunto de atitudes, fundado em valores (humanistas), que compõe uma forma própria de relacionamento interpessoal e nada mais” (p.5). Este autor considera que toda compreensão na Abordagem Centrada na Pessoa é compreensão do desenvolvimento, em todos os níveis em que se mostra” (grifos do autor, p.11), desenvolvimento aqui compreendido como necessidade e não como possibilidade. Assim, o que pode ser facilitado numa relação terapêutica é esse processo de desenvolvimento. Buys (Ibid.) o conceito de Tendência Atualizante como criador da existência e da própria consciência, uma vez que entende que o sentido do mundo é dado por ela.

      Para que o processo de desenvolvimento humano e saudável ocorra, Rogers propôs em seu famoso artigo As condições necessárias e suficientes para a mudança terapêutica na personalidade, publicado em 1946 (citado em Wood, 1994), seis condições, que apontam para a necessidade de contato psicológico, do estado de vulnerabilidade do cliente e da comunicação efetiva das atitudes do terapeuta (de autenticidade/congruência, de compreensão empática e de consideração positiva e incondicional) e da percepção do cliente das atitudes do terapeuta. Mais tarde, Rogers, ao explicitar os Momentos de Movimento, começa a enfatizar a qualidade da presença.

 

Bibliografia:

 

BOAINAIN JR., Elias.  O Estudo do potencial humano na Psicologia contemporânea: A corrente humanista e a corrente transpessoal. VII ENCONTRO LATINO-AMERICANO DA ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA, Maragogi, Alagoas, 1994.

BUYS, Rogério.  O Conhecimento centrado na pessoa, 1997.  (mimeo).

____.  A Abordagem Centrada na Pessoa e seus pressupostos.  1999 (mimeo).

CURY, Vera Engler.  Abordagem Centrada na Pessoa: Um Estudo sobre as implicações dos trabalhos com grupos intensivos para terapia centrada no cliente.  Campinas.  Universidade Estadual de Campinas/Faculdade de Ciências Médicas, 1993.  Tese.  (Doutorado em Saúde Mental)

HART, Joseph, TOMLINSON, T. (Orgs.)  New Directions in client-centered therapy.  Boston: Houghton Mifflin, 1970.

HOLANDA, Adriano Furtado.  Diálogo e Psicoterapia: Correlações entre Carl Rogers e Martin Buber.  São Paulo: Lemos, 1998.

ROGERS, Carl Ramson.  The Necessary and sufficient conditions for a therapeutic personality change.  Journal of Consulting Psychology,  v.21,  n.2,  p.95-103,  1957.

____.  Psicoterapia e Consulta Psicológica.  Santos:  Martins Fontes,  1973.

___.  O Tratamento clínico da criança-problema.  São Paulo:  Martins Fontes, 1978.

____.  Tornar-se pessoa.  São Paulo:  Martins Fontes,  1977.

____.  Um jeito de ser.  São Paulo:  EPU,  1983.

____.  Gloria – A Historical note. In: LEVANT, SHLIEN.  Client-Centered Therapy and the Person-Centered Approach: New directions in theory, research, and practice.  NEW York:  Praeger, 1984.

TASSINARI, Marcia Alves.  A História da Abordagem Centrada na Pessoa no Brasil.  In: VIII ENCONTRO LATINO-AMERICANO DA ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA, Aguascalientes, México, 1996,

WOOD, John Keith et. al. (Orgs.).  Abordagem Centrada na Pessoa.  Vitória:  Editora Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1994.

 

1[i] que se transformou no cap. 2 do livro Terapia e Consulta Psicológica, 1973.